25 julho 2009

Santos adultos têm festa de meninos

Os santos adultos da Igreja Católica, Cosme e Damião, festejados neste domingo, 27, viraram meninos e gêmeos no imaginário popular. Esta tradição que resulta do encontro entre ritos católicos e a religiosidade de matriz africana transformou-se na festa em que a infância é soberana.

O doutor em antropologia e professor da Ufba, Vilson Caetano, explica que, do ponto de vista da tradição africana, é fácil entender esta celebração do “ser menino” numa dimensão sagrada.

“A criança nas religiões de matriz africana está ligada à continuidade, à riqueza e à alegria”, diz Vilson Caetano. O antropólogo explica que na tradição africana preservada na Bahia, tanto o nascimento como a morte são tratados como princípios da ancestralidade. Uma criança nascida traz com ela a continuação dos seus antepassados.

O entendimento central é marcado até por uma máxima: “Os que nascem nunca morrem”. O ciclo da vida é considerado ininterrupto. “Não no sentido de uma reencarnação cíclica, mas como uma semente que carrega as informações da nova planta. Observando a natureza, africanos e africanas elaboraram por primeiro esta noção que mais tarde vai aparecer com o nome de genética”, diz.

Se a criança já tem importância neste sistema, gêmeos ganham ainda mais força no imaginário. “As mulheres africanas em linhas gerais eram muito férteis, assim tanto a mortalidade infantil quanto a mortalidade da mãe era vista como algo particular e recebia tratamento especial. O momento de dar à luz era visto como algo cercado de cuidado. Isso também valia para os primeiros dias do recém-nascido, que em algumas culturas só era apresentado à comunidade após o 17º dia quando esta ouvia atentamente o seu nome”, diz Vilson Caetano.

Daí que não é difícil imaginar como na Salvador povoada por africanos e seus descendentes, a partir do século XVI, o culto a divindades crianças e gêmeas, os nvunji da tradição angola ou os ibeji da iorubá ganharam tanta proeminência a ponto de invadir o altar católico.

“Certamente os mabaços, como também são chamados, sempre foram invocados para proteger as famílias africanas fragmentadas e escravizadas”, completa. Um outro indício da importância do nascimento de gêmeos na tradição africana é que o filho após o nascimento deles, na cultura iorubá, recebe o nome de Doum. É por isso que, em algumas imagens, aparece o terceiro personagem, sempre menor do que os outros dois.

O nascimento de gêmeos também pode ser compreendido como riqueza e prosperidade. Por este motivo a celebração para divindades como os ibejis é marcada por distribuição de vários tipos de comida e com as crianças como convidadas de honra.
Fonte: "A Tarde"

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