Dilma, Campos e Marina, o jogo sem a polarização do passado

Ao pedir ao STF (Supremo Tribunal Federal) a aplicação da pena máxima ao núcleo político do mensalão, em seu artigo deste domingo para o Estadão (A responsabilidade do STF), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso exercita a máxima de que a política é a arte da hipocrisia. Um dos pactos tácitos da transição para o governo Lula foi o não levantamento de problemas ocorridos no governo FHC. E, do lado do PT, o negociador foi José Dirceu.
Os últimos dias casaram decisões fundamentais para o desenho das eleições de 2014, e a celebração dos direitos na Constituição cidadã. Em seu artigo,  FHC limitou-se a criticar o apego do STF ao formalismo das leis e exigir a punição.
Mas é o de menos. O importante é a leitura política do artigo.
Ontem, após o anúncio do pacto Eduardo Campos-Marina Silva, pareciam claros os caminhos que ele e Aécio Neves irão seguir daqui por diante:
1. Campos reforçará o discurso de “melhorar o que já existe”.
2. Se não conseguir desenvolver um discurso alternativo, o PSDB ficará cada vez mais prisioneiro do bordão único do “antipetismo”.
O artigo de FHC não deixa dúvidas quanto a isso: não conseguirá.
Esse impasse programático me fez lembrar dois analistas.
Um, o ex-presidente José Sarney, talvez o político de maior “feeling” da República que, em 2009, concedeu-me entrevista analisando os novos tempos de organizações sociais e de Internet, da crise da política convencional e dos partidos, dos paralelos entre Getúlio e Lula. Sobre 2010, foi taxativo: o PSDB acabou, não conseguirá se preparar para os novos tempos; a oposição nascerá do seio das forças que apoiam o governo Lula.
O segundo, o trabalho de André Singer sobre o lulismo, logo após a mudança de governo. Ele compara com os Estados Unidos pós-Roosevelt. Em alguns momentos da história, diz ele, alguns líderes trazem um discurso tão forte que mudam a agenda política. Até partidos de oposição, se quiserem conquistar o poder, terão que se pautar pela nova agenda.

A nova sociedade de massa e a oposição viável

Algum tempo antes, em 2010, eu já tinha procurado alguns paralelos mais antigos com os Estados Unidos e a ascensão da democracia de massa.
No artigo “A oposição e a democracia de massa”, de 26 de junho de 2010 (http://glurl.co/c38) alertava para o que ocorreu com o Partido Democrata nos Estados Unidos de meados do século 19, quando o republicano  Andrew Jackson percebeu o advento da sociedade de massas.
“Por não entender os novos tempos, o Partido Democrata norte-americano perdeu o bonde das eleições da Guerra da Secessão até a eleição de Franklin Delano Roosevelt, nos anos 30”. Justamente por não ter conseguido engatar seu discurso aos novos tempos.
E apresentava o que julgava ser o discurso de uma oposição viável e produtiva:
“Em cima dessas lições históricas, os princípios para uma oposição viável:
1.    O desenvolvimento é um sistema integrado, atendendo a todas as partes. Mas não será viável nenhum projeto político que não contemple os excluídos, as novas classes sociais e o desenvolvimento regional. Se não entender a era da democracia de massa, dança.
2.    Nesses processos de grandes mudanças, sempre haverá o choque entre a civilização (os que procuram uma transição pacífica) e a barbárie. O pior que poderia acontecer para o país seria a radicalização de qualquer lado. Nos EUA, levou à Guerra da Secessão, anos depois.
É sobre esses pontos que deverão se debruçar os novos líderes da nova oposição que surgirá. E, aí, trata-se de uma luta civilizatória. Se o estilo FHC/Serra prevalecer, até por falta de condições de rachar o país, a oposição desaparecerá - e o país pagará um custo altíssimo de não ter uma alternativa de poder. Se prevalecer a visão dos novos líderes, poderemos entrar em uma era de democracia estável”.

O fim do bipartidarismo

A nova pauta já foi dada pelas manifestações de junho passado, antecipando em alguns anos o que analistas previam: da ascensão das novas classe, agora amparada pelas redes sociais, nascerá um cidadão muito mais exigente, muito menos comprometido com a polarização imposta pela ditadura, cuja pauta de reivindicações está dada:
1.     O Estado tem que ter como foco o cidadão consumidor de serviços públicos.
2.     Tem que se aumentar a inclusão, mas também aumentar a eficácia do Estado.
3.     Polarização política  só interessa para os que não conseguem atuar fora dela. Não para a maioria dos eleitores.
Essa visão binário marcou a ditadura, com a polarização Arena-MDB. E, depois, a pós-ditadura quando, após idas e volteios, o jogo de concentrou na disputa PSDB-PT.
No segundo mandato, Lula se distanciou dessa polarização, tentando se transformar na síntese de todas as forças. Dilma também se afastou do petismo clássico, até exagerando no distanciando da parte mais virtuosa, a dos movimentos sociais. Campos e Marina levantam bandeiras abrangentes, muito distantes da polarização política restritiva de hoje.
O único que preserva a polarização é o PSDB, através da herança maldita de FHC.
Mesmo após as manifestações de junho, o sociólogo FHC continuou preso ao esquematismo dos conflitos de classe propondo – sempre de forma genérica e superficial – que o PSDB ampliasse seu papel de representante da classe média contra o que chamava de populismo do governo.
As manifestações de junho trouxeram à tona um novo tipo de ativismo, de um pessoal sem lembrança dos anos de chumbo, sem ligação histórica com os partidos, sem o pensamento esquemático que dominou a geração anterior. Por vaidade ou superficialidade, em nenhum momento FHC incluiu o povo no seu discurso, mantendo o mesmo desprezo de seus tempos de presidente, no qual a inclusão de qualquer tema que envolvesse povo era considerado populismo desqualificador, mal visto nos salões.
Desde que assumiu a presidência do PSDB, Aécio colocou em marcha projetos de rede, visando levantar a experiência do PSDB em vários municípios para, a partir daí, levantar algo que, mesmo de longe, possa sugerir um “modo PSDB de governar.
Dificilmente conseguirá. O partido continua com alergia em pronunciar a palavra povo, direitos sociais, modelos participativos. E seu laboratório maior, São Paulo, é um deserto de ideias e experiências.
Essa foi a herança maldita que FHC legou ao PSDB: um projeto sem povo.

Os novos tempos

Campos e Marina elaborarão o discurso da continuidade, no qual estarão presentes dois elementos centrais: o da inclusão e dos direitos da cidadania de Marina (na qual o meio-ambiente será a versão moderna) e a eficiência gerencial de Campos.
Por seu lado, Dilma terá a apresentar os resultados do Brasil Sem Miséria e do Bolsa Família, a consolidação dos programas de educação, Luz para Todos e outras peças de cidadania.
Os dois lados têm suas vulnerabilidades.
Marina terá dificuldade em coadunar o discurso modernizante com a visão moral evangélica. Campos terá dificuldade em explicar suas alianças e compatibilizar o discurso interno com o novo. Saul Leblon batizou o novo discurso de ecoliberalismo ou algo semelhante. Será por aí.
Dilma ainda está exposta a críticas sobre seu modelo de gestão
Mais do que isso, como salientados por vários comentaristas do Blog, os partidos terão que se reinventar. Os novos lances políticos colocam o desafio da renovação de conceitos, da superação das polarizações binárias, das maneiras de encarar a explosão de participação e de propostas trazidas pelas redes sociais.
Mas pode se estar no início de uma disputa virtuosa, programática, capaz de enriquecer o debate político nacional.
Processos históricos são inevitavelmente lentos. Mas, a cada novo episódio, o velho vai sendo enterrado.